Prólogo

Sou daquele tipo de pessoa que adora chuva, o clima nublado, o barulho das gotas tocando o vidro da janela e a sensação de conforto que fica por todo canto, durante a chuva tudo parece melhor, ao mesmo tempo que tudo pode parecer pior. É como se o que estivesse acontecendo fosse reflexo do que estamos sentindo. Aquele dia eu não pude simplesmente fechar os olhos ao som de Passenger e sonhar com um mundo perfeito para mim, era hora de acordar para a realidade. 

Eu estava na rua olhando para os meus próprios pés enquanto caminhava com medo de tropeçar nas folhas molhadas, parei de andar para observar uma casa incomum, mas ao mesmo tempo muito bonita... Ela já estava aqui antes? Essa pergunta me fez vagar o olhar pela cosntrução procurando algum detalhes que me recordasse algo que já tivesse visto, talvez fosse apenas uma casa que foi reformada no final de semana, pintada talvez.

Por trás de uma das janelas da casa se escondia um rosto familiar, assustado... Quem seria ele? Ela? Não tinha certeza sobre o sexo. Era um olhar definido, único, mas não de uma maneira que se pudesse identificar alguma semelhança com nenhuma pessoa com quem eu convivia habitualmente.

Não posso negar, eu estava intrigada, levantei minha mão para um aceno, mas alguma coisa estava errada. Só naquele momento reparei que a chuva havia parado, eu estava muito concentrada em meus pensamentos, ficou tudo quieto rápido demais, e vagando o olhar em volta tive a convicção de que estava perdida. Qual foi que eu tinha entrado naquela rua? Provavelmente por isso eu não reconhecia a casa. Voltei a olhar a janela, o rosto já não estava mais lá. Continuei andando até que mais a frente avistei um garoto sentado em uma cadeira na calçada, atravessei a rua com cuidado até que mais de perto percebi que não era um garoto, e sim um senhor de mais idade. Minha mente estava pregando peças demais em mim...

O senhor se inclinou para pegar algo no chão atrás da cadeira, e voltou com um chapéu lhe cobrindo o rosto, parei um pouco para analisa-lo, eu não queria pedir ajuda sem querer a algum pedófilo, louco ou um tipo de assasino da mala. Esse pouco tempo que parei foi o suficiente para me deixar mais confusa do que eu já estava, as roupas do senhor não eram nem um pouco normais, ou pelo menos da atualidade, me lembravam remotamente a moda dos anos 20.

Mudei a direção para qual eu andava, afim de voltar para a casa em estilo alemã  e de lá reecontrar o meu caminho, acredite, se as coisas estavam confusas em uma nota oito, naquele momento ela subiu para dez, fui andando e andando e aquela maldita esquina não aparecia nunca! Aquela rua não tinha final: uma eterna linha sem ponta. Cada passo parecia uma eternidade, mas o tempo já não era mais possível de calcular, tudo parecia tão distante e díficil.

Caminhando com passos largos, eu observava as coisas à minha volta, mas me faltava coragem para tomar iniciativas, eu estava sem saber o que fazer, não assustada, e nem com medo, somente atordoada pela mudança repentina, eu já havia visto sobre casos assim naqueles filmes de ficção, tudo que eu teria que fazer era seguir o coelho branco, tomar chá com um chapeleiro e discutir com rainha, e depois poderia voltar para casa.

Aquele lugar era realmente maluco, já fazia alguns pares de horas que eu havia desistido de andar e simplesmente fiquei sentada em uma pedra achatada, o clima era realmente curioso, sinceramente não sei se eu sentia frio ou calor, uma temperatura baixa mas abafada ao mesmo tempo. Eu ainda não ousei falar com ninguém... falavam meio enrolado, com sons baixos e confusos, como se estivessem fugindo de algo, talvez se si mesmos. Por em quanto eu ainda estava na época de assimilação, tentando levar tudo como se eu tivesse em um filme daqueles bem loucos que no final não passava de um sonho.. Mas será mesmo que tudo isso é tão irreal? Minha mente teria capacidade para gerar tantos detalhes? Talvez estejam certo.. ''A mente humana é algo incrível''.

 As folhas da árvore a minha frente eram bem espessas, mas ao mesmo tempo espalhadas pelo galho, o que não prejudicava a visão de tudo o que acontecia na rua à minha frente.. Uma vente fria batia em meus cabelos que apesar de desgrenhados, já estavam secos da chuva, aquela brisa confortável me fez fechar os olhos, o que também permitiu me trazer os pensamentos que eu tentava refugiar em algum canto obscuro da minha mente. Eu queria mesmo voltar para casa? Talvez não seja o pensamento de uma pessoa em plena sanidade mental, mas eu realmente estava em dúvida, tudo o que eu sabia é que me sentia segura, confortável e pela primeira vez na minha vida: livre. E isso era tudo que eu precisava no momento. Um garoto que passava junto a um grupo virou o rosto na minha direção, e eu não conseguia desviar o olhar, ele se separou do conjunto de pessoas e veio caminhando até mim.

  - Você está bem? - Eu abri a boca para responder alguma coisa, mas eu não sabia o que dizer.  Depois de um silêncio um tanto constrangedor, ele completou. - Você deve estar querendo saber como voltar... -  Quando ele falou isso, nem me importei em como ele sabia  que ali não era meu lugar, provavelmente qualquer um que tivesse me visto teria certeza disso, eu era muito diferente deles.

- Na verdade não... - Respondi com mais convicção do que eu realmente tinha. Naquele momento ele começou a me olhar como se eu fosse uma completa maluca, achei que ele fosse sair correndo, mas se limitou em me dar um sorriso e me perguntar com a voz calma:

- Você está feliz de estar sem rumo? 

- Encaro isso como uma oportunidade única, não sei como cheguei, não sei porque vim aqui, só sei que se isso aconteceu é melhor eu aproveitar cada segundo para descobrir mais sobre tudo... - Falei dando de ombros. A questão era aceitar a situação e seguir em frente, não sou do tipo que acredita que se lamentar levará a algum lugar. Ele olhou para mim e deu um sorrisso tão luminoso que quase chegou a brilhar de verdade.  - Não acha isso?

   - Não, não acho. Ou pelo menos.. Não achava. Mas vendo da forma pela qual você falou até que  é interessante. - Agora minha curiosidade já ia crescendo aos poucos, mesmo achando que seria indelicado não pude me segurar a perguntar:

- Quem é você?

- Uma pessoa igual a você, que caiu aqui, sem se lembrar de detalhes.

- Eu estou perguntando o seu nome. 

- Boa pergunta. Qual o seu nome? - Ele virou a pergunta para mim e eu já ia respondendo quando a informação fugiu da minha mente, o que eu ia falar mesmo? Eu não me lembrava, comecei a gaguejar. - Com o tempo você se acostuma com a falta de individualidade, mas quando chegarmos na fronteira, iremos arranjar um nome para você, ou melhor, um apelido. O meu é Fazedor de Chapéu. - Ele segurou a minha mão e me levou por dentro de um conjunto de árvores que eu não tinha visto antes, então acho que eu estava certa, realmente tinha um chapeleiro.